Once upon a time…
Drawn from: Somewhere in space, Mystery story, Superhuman Helper, Woman vs Society Conflict. Told in Portuguese.
Eu sou Miro, um corvo que aprendeu a voar entre restos de luz. Habito um lugar onde o chão não é chão, e sim fumaça escura que canta. Há rochas que brilham quando lembram de algo, e correntes de vento que cheiram a ferro e leite. Aqui, todos seguem a Velha Ronda: a cada treze voltas do maior dos três sóis, apagamos as vozes por um dia. Dizem que, se falarmos, as sombras nos contam segredos que não queremos ouvir. É um costume antigo. É lei de medo.
Nessa época, chegou Ila. Ela andava em silêncio mesmo quando podia falar. Carregava um cesto de sementes brancas, frias como gelo. Queria plantar um jardim nos canais de poeira, para que crescesse um mapa vivo. Dizia que, quando abrimos espaço para raízes, abrimos espaço para respostas. O Povo da Ronda não gostou. Um jardim que fala? Um mapa que cresce? Perigoso, disseram. Acharam que Ila queria ensinar o chão a lembrar demais.
Eu a seguia, curioso. Vi quando ela colocou a primeira semente numa fenda. O grão deu um suspiro e sumiu. Depois brotou uma haste fina que apontava para um lugar onde ninguém ia, perto da parede de vidro antiga, aquela que guarda a memória do céu. Iluminou como isca para olhos. Foi então que começaram os sussurros contra Ila. Diziam que ela quebrava a trégua com os ecos. Diziam que o silêncio era frágil perto dela.
Na noite da Ronda, quando todos calaram, Ila andou comigo até a parede de vidro. O jardim, teimoso, já traçava linhas pálidas. O mapa mostrava caminhos que cruzavam por baixo da fumaça, como veias. A parede de vidro respondeu. Surgiu um rosto sem contorno, voz sem som, que pediu, com gesto leve: tragam de volta o que tiraram de nós. O Povo chegou correndo, sentiu o medo velho e tentou arrancar as raízes. Mas cada raiz guardava um nome perdido, e, ao serem puxadas, soltavam um brilho que desenhava histórias no ar. Ninguém sabia onde enfiar os olhos.
Ila não gritou. Pegou a maior raiz e a encostou na parede. A parede se abriu como uma pálpebra cansada. Ali, atrás, havia um lago parado, feito de tempo. Nele boiavam retratos de vozes proibidas. O Povo hesitou. Eu bati as asas, e o som que fiz quebrou o dia mudo. A Velha Ronda ruiu como barro seco.
De manhã, o jardim virou praça. A mulher não venceu o Povo. Nem o Povo venceu a mulher. A sombra, enfim, dividiu a língua com a luz. E eu, corvo, aprendi um novo costume: plantar perguntas antes do silêncio.
Did it land?