Once upon a time…
Drawn from: Japan, Present world story, Guardian, anything you want. Told in Portuguese.
Quando a fábrica de componentes eletrônicos em Hamamatsu anunciou que reduziria o quadro, ninguém ficou exatamente surpreso. Ainda assim, para Kenta, 42 anos, o aviso colado no quadro de avisos parecia uma sentença. Ele tinha duas filhas no fundamental, uma hipoteca e uma esposa que trabalhava meio período na farmácia do bairro. Ao fim de março, estaria fora.
Nos primeiros dias, Kenta saía de casa no mesmo horário de sempre. Andava até a estação, fingia esperar um trem, e voltava por ruas secundárias, como se disfarçasse a própria vergonha. Parava numa máquina de bebidas, comprava café enlatado e sentava no pequeno parque perto do rio Tenryū, observando idosos fazendo alongamento e estudantes correndo atrasados.
Foi lá que reparou no rapaz de terno amarrotado e gravata afrouxada, sempre sentado sob a mesma cerejeira, olhando o celular sem tocar nele. Um dia, a máquina engoliu as moedas de Kenta, e ele soltou um palavrão baixo. O rapaz riu. Ofereceu uma lata de café preta, extra forte, dizendo que aquela máquina “tinha mau humor”. O nome dele era Sho, 27 anos, demitido de uma empresa de publicidade em Tóquio, de volta à cidade natal, hospedado na casa dos pais e sem coragem de contar que o trabalho não rendeu.
Começaram a se encontrar ali. Falavam de coisas simples: o preço do abura soba no restaurante da esquina, o vento que cheirava a metal vindo da fábrica, o barulho distante dos trens de carga. Às vezes, ficavam em silêncio, ouvindo o som repetido do semáforo para pedestres. Na terceira semana, Sho levou um caderno cheio de rascunhos. Queria abrir um pequeno estúdio de design, mas não sabia por onde começar. Kenta, que passa tempo demais montando peças em linha, sugeriu um mapa: listar clientes possíveis, custos, prazos. Ele mesmo nunca tinha feito um mapa para a própria vida.
Num sábado, foram a um café onde uma dona baixinha, senhora Akiyama, colocava vasos de hortênsias em cima do balcão. Sho se ofereceu para refazer o cardápio; em troca, teria seu contato divulgado para outros comerciantes. Kenta assistiu ao jovem negociar, a voz tremendo no início e firme no final. Ao sair, comprou outro café enlatado e percebeu que suas mãos tremiam menos.
Em abril, Kenta começou a trabalhar como operador em uma pequena oficina de bicicletas, arrumando correntes e aprendendo nomes de peças novas. Sho entregou seu primeiro panfleto impresso, com uma logo simples: “Estúdio Tenryū”. Quando as cerejeiras finalmente floriram, Kenta chegou cedo ao parque. Pensou em como, às vezes, a vida não melhora de uma vez, mas muda de direção, como um trem que pega uma linha secundária e ainda assim chega a algum lugar. Sho apareceu atrasado, ofegante, com duas latas de café. Eles brindaram sem cerimônia, sob pétalas caindo como uma chuva paciente.
Did it land?