Tales of the sea

Once upon a time…

Drawn from: an adventurer ship, Present world story, Superhuman Helper, an old man reflecting on his life. Told in Portuguese.

Chamamos o barco de Esperança só por hábito. Era um casco cansado, carregando sacos de farinha, motores velhos e, às vezes, nossos sonhos. Partia da enseada antes do amanhecer, levando cinco de nós por vez e voltava no fim da tarde com peixes, recados da cidade e notícias do mundo. Naquele dia, fomos juntos: homens, mulheres e as crianças que ainda não tinham medo de enjoar. Íamos levar donativos para a comunidade do outro lado, que perdera o galpão no temporal. E levávamos também o seu Antero.

Ele pediu para ir na proa, dizendo que queria ver o mar inteiro, como quem se despede de uma paisagem. Nós o conhecíamos bem: o velho que sempre consertava um remo com a mesma paciência com que contava uma história. O vento veio frio, e as ondas batiam num ritmo que nos lembrava aquela cantiga sem letra que aprendemos antes de falar.

No meio do trajeto, quando o motor falhou e o Fabinho abriu a caixa de ferramentas, seu Antero começou a contar. Não foi um discurso; foi uma teia. Falou do primeiro barco do pai, uma canoa tão fina que cortava a água como faca, e de quando ele, com quinze anos, achou que nunca envelheceria. Contou que amou duas vezes: uma mulher de riso fácil e o mar, que não ri, mas escuta. Disse que aprendeu tarde a pedir perdão aos filhos por ter ido e voltado tanto. E que não se arrependeu dos dias em que ficou: “Foram os únicos em que medi o tempo pelo cheiro do feijão.”

Enquanto o Fabinho amarrava um fio com fita isolante, nós ficamos em silêncio. Era raro ouvir alguém falar de si sem exagero nem desculpa. Seu Antero olhava o horizonte como quem lê um livro que já sabe de cor. Disse que, quando era moço, achava que coragem era gritar para as ondas; depois entendeu que coragem é voltar mesmo quando o mar está calmo, porque é em terra que mora o que mais nos assusta: promessas.

O motor pegou de primeira, como se quisesse terminar a conversa. Entregamos as caixas, abraçamos os vizinhos e voltamos ao entardecer, com a luz fazendo o mar parecer um campo de cobre. Ao atracar, seu Antero tocou o corrimão e sussurrou “obrigado”. Não sabemos a quem. Na semana seguinte, ele partiu de vez, em silêncio de rede dobrada.

Desde então, quando o Esperança corta a primeira onda, é como se ele nos lembrasse: o mar é grande, mas a vida cabe numa travessia bem feita. E a nossa, juntos, continua.

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