Once upon a time…
Drawn from: Iconoclast Period, group of knights, Mentor, surreal elements. Told in Portuguese.
Dizem que, no reino do leste, o céu às vezes não aceitava figuras. Nestes tempos, o povo temia imagens que olhavam de volta e jurava que os olhos pintados aprendiam a ver na noite. Monges raspavam cores das tábuas e batiam contra o chão, e a poeira misturava-se a incenso. Havia rios que mudavam de curso sem avisar, e paredes que guardavam, sob reboco, nomes que pareciam abrir-se como feridas. Era nesse mundo que viviam os cavaleiros de Santo Nilo, homens de cavalos magros e mãos calejadas, que juravam pela Palavra que não tinha rosto.
O grupo era pequeno, mas coeso. Tinha quatro homens e uma mulher que ninguém chamava de dama, porque ela recusava tal título como quem recusa um fardo. O líder era Aureliano, de barba curta, com uma cicatriz na pálpebra; não lembrava se fora feito por lâmina ou pela ponta de um ícone que alguém lhe atirara num motim antigo. Havia Simeão, que conhecia o gosto da ferrugem e adivinhava tempestades pelo ranger das dobradiças. O terceiro era Petre, um gigante calado, que sempre enfaixava a mão direita, como se nela houvesse algo que não queria mostrar ao sol. O quarto, Gregoras, era o mais novo, esperto com as cordas e com as línguas, que sabia falar com mercadores armênios e com monges silenciosos. A quinta, Irina, tinha um jeito de andar que não marcava o chão, e carregava sob o manto um livro sem imagens, cheio de letras miúdas que ninguém além dela lia.
Eles seguiam uma trilha feita de ordens e rumores. Uma noite, no mosteiro de São Bessarion, um abade de olhos vermelhos pela vela lhes apontou um mapa com os dedos. Disse que um senhor das colinas guardava, num pavilhão de prata, um relicário de vidro, um ovo pálido que, se exposto ao sol, deixava nascer de seu interior um pássaro que não cantava, mas lembrava as vozes dos mortos. Disse que já o ouvira, que chorara, e que não queria mais ouvir. Esse ovo, disse o abade, chamava-se Alba, e trazia mau-sorte em épocas de seca. O senhor das colinas, de nome Estavro, queria vender Alba a um emissário que vinha do mar. Os cavaleiros de Santo Nilo foram, então, convocados a levar o tal ovo até a capital, onde um general de fé dura planejava quebrá-lo num rito, para mostrar ao povo que nada havia além da palavra e do pão.
Disse o abade, antes de lhes entregar uma carta: “Não o toquem. Não o olhem por muito tempo. Se ouvirem vozes, cantem salmos. Se não souberem salmos, rezem com um dedo na terra.” E depois, como quem se lembra tarde de um detalhe que pesa, acrescentou: “Nas colinas de Estavro, o povo segue uma tradição estranha. Em noites sem lua, eles estendem panos entre árvores e varas, criando arcos pelo vale. Dizem que o vento passa por esses panos e leva consigo memórias de sonhos maus. Só que às vezes o vento devolve memórias que não são de ninguém. Se derem de cara com esses panos, não passem sob eles sem antes pedir licença. O vento pode enfiar-se no ouvido e mudar suas lembranças.”
Era o costume do Vento de Linho. Em algumas aldeias, os teares ficavam do lado de fora durante semanas, e os panos balançavam com ruído de mar morto. As crianças aprendiam a falar com a boca meio aberta, para que o vento entrasse e saísse sem se prender nos dentes. Os velhos contavam que, numa colheita de tempos remotos, o vento levou a lembrança de um crime e ninguém mais sabia quem tinha matado quem. Assim, as famílias pararam de se odiar, mas também pararam de saber de onde vinham. Essa era a terra do leste naquele tempo.
Os cavaleiros partiram antes do amanhecer, quando as sombras ainda tinham um contorno igual ao dos corpos. Levaram dois mulos, água, pão seco, e uma manta grossa. Cruzas de madeira pendiam de seus pescoços, feitas com prego velho e fio de cabelo. Aureliano guiava, e Irina vinha ao lado, coberta até o nariz. Gregoras cantava baixinho, uma cantiga de pescador que roubara num cais. Simeão mastigava uma raiz que dizia limpar o sangue. Petre ia por último, sempre olhando para trás.
Ao segundo dia de marcha, encontraram os primeiros panos do Vento de Linho. Estavam esticados entre duas fileiras de oliveiras retorcidas, como se alguém tivesse costurado o ar. Havia panos brancos, azuis, e alguns tingidos de ferrugem. Os nós que os prendiam eram feitos com cabelo humano e lã de cabra. As franjas eram longas, e nelas pendiam amuletos: dentes de raposa, ossos de pássaro, pequenas moedas sem rosto.
Aureliano mandou parar. Pôs a mão no peito. Lembrou as palavras do abade e disse: “Vamos pedir licença.” Irina, sem desmontar, falou ao vento: “Não somos ladrões de memórias. Levamos cartas e precisão. Se quiser levar as nossas dores, leve. Se quiser trazer outras, nós as devolvemos com água.” O vento soprou por um instante, e os panos bateram como asas lentas. Petre inclinou a cabeça, como se escutasse um rumor de feira. Gregoras fechou os olhos e, por um momento, pareceu que esquecera o rosto de sua mãe. Abriu-os rápido, respirou fundo, e assobiou a cantiga do cais, que o trouxe de volta.
Passaram sob o primeiro arco. O som mudou. O mundo parecia tampado por uma tigela. Tudo ficou oco. O cascalho sob os cascos soou como jarros batidos, e os próprios passos pareciam vir de uma rua distante. Simeão, com o olho sem pestana, enxergou sombras que não pertenciam a eles. Uma criança corria na poeira, sem corpo, só uma risca de sombra. Depois, nada. Aureliano fez o sinal da cruz e mandou seguir. Cada arco dava a sensação de deslocar levemente a memória, como se uma página se soltasse do livro da cabeça e fosse colocada em outro capítulo. No terceiro arco, Irina sentiu que fora criança em uma aldeia de onde nunca saíra, embora soubesse que crescera entre muros cor de barro, no sul. No quarto arco, Petre ouviu a voz de um pai que nunca conhecera, dizendo-lhe para manter a mão enfaixada.
Quando saíram do corredor de panos, a luz above era de chumbo, e um cheiro de mel velho pairava. Pararam para comer. O queijo estava azedo e o pão duro. Gregoras disse, de repente: “Eu não sei a cor das minhas botas.” Todos olharam para seus próprios pés. As botas eram marrons, como sempre, mas naquele momento, por um instante, eram azuis. Piscaram, e o marrom voltou, como uma lembrança que se impõe. Aureliano falou: “O vento trouxe um trapo que não era nosso. Baixem a cabeça, e se lembram de quem são.”
Irina abriu o livro sem imagens e leu em voz baixa. As palavras, que eram apenas letras negras, tinham um som que amarrava as memórias como quem amarra lenha com corda. O vento cessou. Os panos, por trás, foram jogados ao chão por alguém que corria. Viram, de longe, mulheres recolhendo os retalhos, enrolando-os nos braços, como se fossem crianças. Uma delas fez sinal de bênção aos cavaleiros, depois virou o rosto e cantou uma melodia sem notas.
No topo da colina, ao fim do terceiro dia, viram a torre do pavilhão de Estavro. O sol caiu, e o pavilhão brilhou de um jeito sujo, como prata mal polida. O caminho era guardado por soldados vestidos de preto, sem insígnias. Tudo ali era liso, como se as mãos do tempo tivessem esfregado as paredes. O portão tinha a madeira lustrada, mas sem figuras, sem entalhes. Aureliano apresentou a carta do abade. O capitão do portão leu, mexeu o bigode, e mandou entrar.
Recebeu-os o senhor Estavro, um homem com um corpo que não se sabia se era magro ou forte, porque ele vestia um manto que disfarçava linhas. Tinha um rosto que lembrava uma pedra de rio: sem arestas. Seus olhos eram claros e traiam uma vigília contínua. No pavilhão, nada nas paredes: sem tapeçarias, sem cores. Era como entrar num recipiente de barro. Estavro ofereceu vinho e nozes. Irina recusou o vinho. Aureliano aceitou, bebeu pouco. Estavro, sem pressa, disse: “A Alba está aqui. Tenho guardas suficientes. O emissário do mar vem amanhã, com prata e sal. Por que eu entregaria a vocês?”
Aureliano disse, com calma: “Porque o abade lhe mandou esta carta, com o selo que nunca foi posto em nada que fosse mentira.” Estavro abriu a carta novamente, leu mais uma vez, e soltou o ar como quem apaga uma vela. “A fé deles é uma régua. Mas meu povo está com medo. Dizem que o ovo traz pragas. Dizem que a aldeia ao pé do monte perdeu as sementes. Dizem que o vento de linhos se transformou, que devolveu memórias que pesavam como pedras. Ontem, um homem, meu vizinho, enforcou-se num cipreste, sem saber por quê. Talvez o ovo chame essas coisas.” Aureliano respondeu: “Pode chamar. Mas o que você segurou chama mais, porque retém. Deixe que nós levemos, e o povo vai respirar.” Estavro ficou calado, pensando uns minutos. Depois disse: “Aceito. Mas vocês não vão dormir aqui. Não quero que o ovo durma duas noites sob o mesmo teto.”
Levaram-nos então a uma cabana do lado de fora do pavilhão, que tinha piso de terra batida e um braseiro pequeno. Um velho cego foi quem lhes levou o jantar. Trazia pão e sopa de favas. Ele falava com um sotaque que vinha do interior do interior, com sílabas que a língua mastigava. Disse: “Vocês vão levá-la? Vão levar a voz?” Irina perguntou: “Você já a ouviu?” O velho, rindo sem dentes: “Ouço tudo. Ouço a água esconder-se sob as pedras quando olha um sapo. Ouço as cabras derramarem leite por medo. Ouço o ovo. Ele canta com vozes que não são daqui. Dizem que são vozes dos mortos. Eu digo que são vozes de coisas que ainda vão acontecer, mas já se lembram de si.”
Nessa noite, o vento bateu no telhado como dedos. Aureliano mandou revezar a vigília. Petre ficou de pé, encostado na porta, com a mão enfaixada no peito. Gregoras dormiu com a boca aberta, como lhe ensinaram as aldeias do Vento de Linho. Irina não dormiu; lia as letras sem imagens até elas virarem pontos de luz. Simeão sonhou com ferragens e rouxinóis que pousavam em pregos.
De manhã, Estavro trouxe a Alba, num estojo de marfim que parecia um cofre de dentes. A superfície do ovo, sob o vidro, era opaca, quase como uma pedra de rio molhada. Aureliano tentou não olhar, mas foi difícil. Havia ali uma beleza sem formas, como se o ovo não prometesse um pássaro, mas a promessa de uma promessa.
Estavro disse: “A escolta de vocês sai com vocês, mas só até o pé do vale. Depois, se viram. Não quero saber do resto.” Aureliano assentiu. Gregoras amarrou a caixa ao lombo de um dos mulos, envolveu-a com uma manta, e todos partiram pela trilha que descia serpenteando.
No vale, o Vento de Linho estava mais forte. Panos formavam labirintos perfumados com sabão. Crianças corriam embaixo dos panos e riam, como se tivessem mil pais. Mulheres cantavam um refrão sem palavras. Um homem dançava com um jarro na cabeça, pedindo moedas para os santos sem rosto. Ao passarem, alguns velhos fizeram o sinal de algo invisível, como se tocassem uma moldura imaginária, e disseram: “Que o vento leve suas dúvidas e deixe seu caminho limpo.” Aureliano agradeceu. Irina ofereceu, em troca, a leitura de uma bênção sem retratos. O povo escutou e sorriu. O mulo com o ovo relinchou baixo, como se pressentisse mares que não havia.
Ao meio-dia, as árvores tornaram-se mais raras, e o caminho, irregular. Os panos, agora, eram poucos, e os que restavam estavam rasgados, como se o vento os tivesse mordido. Uma névoa fina ergueu-se do chão, uma névoa que tinha cheiro de leite azedo. Foi então que tudo começou a ficar estranho de um jeito que não era apenas medo. Irina notou que o sol deslocava-se no céu como um barco sem remo. Simeão ouviu, no fundo da terra, um batido de martelo que não existia. Petre sentiu o peso de sua mão enfaixada crescer, como se nela fosse crescendo uma raiz. Gregoras viu, ao longe, uma cidade que não podia estar ali: torres em espiral, pontes que cruzavam o ar sem apoio. Piscou, e a cidade sumiu. Aureliano, atento, disse: “Não olhem para longe. Olhem para o chão. O caminho é o mesmo.”
Seguiram por mais uma hora, até encontrarem uma ponte de pedra sem guarda, baixa, sobre um riacho. O riacho fazia um som de vozes, mas era só água. Ao cruzar a ponte, ouviram um chilrear, e por um momento acharam que era um pássaro. Não era. Era a caixa. A Alba cantava, um chirrido miúdo, como se arranhasse por dentro. Gregoras se virou, quase desenrolando a manta. Irina disse: “Não. Não abra. Ela chama. Não dê ouvidos.”
Mas o que chama pelo nome, quando chama certo, encontra a porta. A voz que saiu do ovo não parecia velha ou jovem, não parecia sequer de gente. Era como se um coro de peixes falasse por bolhas. Aureliano sentiu a nuca gelar. Petre apertou a mão enfaixada contra o peito, e por um momento pensou no pai, que não sabia se tivera, e chorou sem lágrimas.
Foi então que, na curva seguinte, apareceu um grupo de homens com capuzes, com lanças curtas, muito leves. Tinham um estandarte branco sem desenho. O primeiro deles, que parecia falar para dentro, levantou a mão e disse: “Parem. Entreguem o ovo.” Aureliano respondeu: “Por ordem de quem?” O homem, com a voz que não afinava, disse: “Por ordem do mar. O mar manda buscar o que foi feito no mar, e tudo que é vidro foi feito de areia. O mar não devolveu. Vai tomar.” Simeão cuspiu no chão: “O mar é grande e está longe. Você é um pedaço de terra em minha frente.”
O homem deu um passo. Os panos do Vento de Linho, atrás, balançaram. Alguns nós se desfizeram. O vento, em resposta, assobiou por uma fresta e trouxe um cheiro de resina que lembrava a infância de alguém. Gregoras vacilou. Irina levou os dedos aos lábios e assoprou três vezes, como aprendem os que leem, para estalar a trama do ar. Aureliano puxou a espada. Petre tirou a faixa da mão direita.
Não tinham visto a mão dele ainda. O que havia ali não era um defeito, mas um acréscimo. Na palma, ao centro, uma linha brilhante corria como um rio. Quando Petre abria a mão, a linha se alargava, como uma fenda que parecia olhar. Não era um olho, mas parecia saber. Ele costumava mantê-la enfaixada para não assustar as pessoas nem atrair mau-olhado. Agora, porém, precisava.
Os homens de capuz hesitaram. A voz do ovo cresceu. O vento de linhos derrubou um arco, que se arruinou como um navio de pano. Os cavaleiros de Santo Nilo se posicionaram, formando uma linha. Aureliano chamou pelo nome de cada um, e, no chamado, havia peso.
A luta foi rápida. Os homens de capuz atacaram como mosquitos, tentando picar e recuar. Petre, com a mão aberta, parava lâminas no ar, como se a fenda nelas bebesse o calor. Simeão derrubou dois com um pau de ferro. Gregoras pulou num tronco, jogou uma corda que enroscou um pescoço, e puxou com força. Irina, sem gritar, recitou uma passagem em voz baixa. As palavras que saíam dela faziam um nó na garganta dos atacantes, que tossiam. Aureliano golpeou o que parecia ser o líder, e o ferimento não sangrou, mas esverdeou, como se o homem fosse feito de sal e se dissolvesse.
No fim, três fugiram. Dois ficaram deitados para sempre. Um gemia, e Irina o socorreu, porque era da sua natureza. Ela molhou com água um pano e limpou-lhe os lábios. O homem, com a língua espessa, sussurrou: “O mar pede o que é seu. Vocês não conseguem vencer mar nenhum.” Aureliano respondeu: “Não queremos vencer mar nenhum. Só queremos levar esse ovo até onde ele pode descansar sem cantar.” O homem riu, um riso de criança ruim, e disse: “Não há lugar que não cante.”
Depois disso, seguiram em silêncio. O vento tinha levado algumas memórias e nos dado outras. Gregoras, por um tempo, lembrava-se de uma vida em que fora oleiro. Simeão pensava nos pregos que não havia batido. Irina, por um momento, já tinha sido mãe, e o leite pesava no peito, mas só por um instante e sem dor. Petre, com a mão enfaixada de novo, sentia que a fenda fechava e abria conforme a vontade do ovo.
Dormiram mal numa grotinha de pedra. A noite caiu pesada, e as estrelas, quando piscaram, piscaram como lâminas. Havia no ar um zumbido que parecia de moscas, mas não se via mosca nenhuma. A voz do ovo, que vinha e ia, parecia agora sussurrar uma história, como se contasse a própria história, ou melhor, a história de algo que ainda viria: um incêndio num porto, homens correndo com panos molhados, um pássaro sem olhos batendo as asas contra o vento. Irina fechou os ouvidos com os dedos por momentos, depois desistiu. “Deixa falar”, disse para Aureliano. “Talvez é como criança: se não respondemos, cala.”
De madrugada, foram acordados por passos. Pensaram que eram mais homens de capuz, mas, ao olhar, viram outro tipo de gente: camponeses com panos brancos nas cabeças, carregando varas e sacos. Era o povo das aldeias do Vento de Linho. Vinham em procissão, com um objeto estranho: um tear desmontado, os fios soltos como tripas. Uma velha veio à frente e disse: “O vento devolveu memórias que não são nossas. Queremos ter de volta a pena e a alegria de cada um. Avisaram-nos que vocês levam algo que canta memórias. Venham conosco, que temos o costume de amarrar o que corre. Chamamos esse costume de Casamento do Vento. É hoje.”
O Casamento do Vento era uma tradição que o abade não mencionara. Segundo a velha, a cada cinco anos, quando o vento ficava vadio, duas aldeias se encontravam num vale e esticavam um tear grande entre quatro árvores. Alguém passava por entre os fios, levando fitas que tinham nomes, e o vento, como um noivo bobo, entrava nos fios e se deixava prender por um dia. Nesse dia, o vento não rondava as casas. As pessoas dormiam sem balançar. Era um casamento curto, como convém. Depois, soltavam o vento de novo, mas ele ia mais manso.
A senhora disse: “Sem isso, o vento enlouquece. Sem isso, o vento entra nos sonhos e arranca as letras. Vocês vieram no ano certo.”
Aureliano olhou para Irina. Ela assentiu. “Se o vento estiver preso, a Alba canta menos. E podemos passar.” Petre também concordou, com um gesto mínimo. Gregoras sorriu, aliviado, porque queria ver aquela coisa do tear. Simeão resmungou, mas topou.
Foram todos para um clareira que lembrava uma mão aberta, com cinco árvores como dedos. Ali, homens e mulheres, crianças e velhos, levantaram o tear. Esticaram fios que brilhavam à luz do amanhecer, alguns feitos de linho, outros de cabelos doados por moças que cortavam as tranças sem lamento. Trouxeram fitas de várias cores, cada uma com um nome, escrito com tinta de noz. Os nomes pareciam respirar. Quando todos estavam prontos, a velha, que se chamava Dária, levantou uma faca fina e cortou o ar à frente, como se fizesse uma abertura. O ar, naquele corte imaginário, tremeluziu como água.
A voz do ovo aumentou, talvez curiosa. A caixa tremia, a manta vibrava. Irina aproximou-se de Dária e perguntou: “Como prendem o vento?” Dária respondeu: “O vento se prende por achar bonito. Ele vê os fios, quer dançar entre eles, e fica. É só isso. Beleza basta para prender muita coisa.”
Começaram, então, o casamento. Dois rapazes e uma moça entraram na trama, levando fitas com nomes. Eles dançavam entre os fios, escorregavam, riam, e por onde passavam os fios cantavam. Não com vozes humanas, mas com um som de flautas velhas. O vento, que vinha das colinas, entrou pelos espaços, e seu sopro ficou preso por um tempo, como mel em pente. As folhas nas árvores pararam, os panos nas varas cessaram de bater. O silêncio que ficou foi bom.
Nesse silêncio, pela primeira vez desde a torre de Estavro, a voz do ovo cessou. Foi como quando o choro de um recém-nascido, depois de horas, enfim se cala, e a casa toda respira. Aureliano, emocionado sem dizer, sorriu. Simeão se sentou e coçou a barba. Gregoras, que não aguentava mais aquele chamar, caiu num sono rápido. Petre, com a mão fechada, sentiu a fenda suave, como um fio de água dormindo.
Mas o silêncio, quando é muito, também chama outras coisas. A terra, sem o ruído do vento, começou a fazer-se ouvir. Pequenas bolhas na lama do riacho estouravam como dedos estalando. De repente, uma sombra passou sobre o tear, rápida, sem corpo. Todos olharam para cima e viram… nada. Nada que tivesse forma. Mas havia uma ausência de forma que fazia escuro na luz. Dária arregalou os olhos. “Ele veio”, disse. “O Noivo Velho.”
O Noivo Velho era uma outra história, que as crianças não podiam ouvir de noite. Diziam que, nos primeiros casamentos do vento, quando os antepassados ainda não sabiam como amarrar vento, a ausência do vento trazia um hóspede que não era da terra. Era um noivo sem corpo, que invejava qualquer união, e, quando sentia que alguém prendia o vento por beleza, ele vinha buscar o que fosse mais leve. Dária não explicara isso antes porque não queria assustar ninguém. Agora, o Noivo Velho estava ali, come-quieto, escalando o ar.
A sombra passou pela caixa da Alba. As cordas do tear vibraram. A manta levantou. O ovo, sob o vidro, deu um bruído curto, como um soluço. Irina correu e segurou a caixa. A sombra pousou na mão de Petre. A fenda na palma brilhou como faca. Petre fechou a mão por instinto. A sombra ficou presa por um instante, como poeira dentro de uma garrafa. Todos ouviram um grito sem som, que doeu nos olhos.
“Segura!”, gritou Dária. “Segura até o vento respirar de novo!”
Petre apertou a mão com força. O Noivo Velho, que era menos corpo e mais vontade, puxou para sair. A mão dói de Petre aumentou, e a fenda parecia querer se rasgar até o cotovelo. Irina recitou, e suas palavras eram simples: “Terra, água, dia, noite. Pão, sal, boca, olho. Fogo, ferro, braço, pedra.” Cada palavra parecia um peso que amarrava a sombra. Aureliano ajudou, colocando a mão por cima da de Petre, e por um momento, ele também sentiu a fenda, uma coisa antiga que queria olhar.
O vento, preso no tear, começou a se encher demais, como cabaça com água. Os fios vibravam, as fitas tremiam com os nomes. As pessoas cantavam agora, baixo, cada um uma nota, formando um rumor de abelhas. A sombra ficou mais fraca, espalhou-se, e então, com um último puxão, escapou da mão de Petre, como um peixe escorregadio. Subiu, tentou mergulhar no ovo, talvez querendo morar ali. Mas a caixa era de marfim e vidro, e tinha sido benzida pelo abade. A sombra bateu, estourou sem som, e se desfazendo, deixou no ar um cheiro de chuva seca.
O vento, enfim, soltou-se do tear, com um suspiro que derrubou folhas e levantou poeira. Voltar a soprar devolveu ao mundo sua música comum. O Vento de Linho correu de volta às aldeias, agitando panos com mais alegria do que medo. Dária sentou-se no chão, cansada. Uma criança começou a rir sem motivo. Alguém tocou uma flauta de osso improvisada. O Noivo Velho, se ainda estava, não se mostrava.
Irina beijou a mão de Petre, por cima da faixa que ele reconduziu com cuidado. “Você segurou algo que nem tinha corpo”, disse. Petre, com a voz que parecia sempre vir de baixo, respondeu: “Não segurei nada. Só fechei a mão.”
A procissão desfez-se, e as aldeias ofereceram aos cavaleiros uma comida forte, com mel e alho. A cozinheira cantava uma canção sobre um pássaro sem olhos que guia os pescadores. A Alba, calada por hora, parecia dormir, se ovo dorme. Aureliano agradeceu a Dária, que lhes deu duas fitas do tear, com os nomes de cada um escritos por mão firme. “Amarre no braço”, disse, “até o mar. E, se o vento tentar entrar pelo ouvido, a fita tapa a entrada.”
Seguiram viagem com o dia alto. O caminho descia para o norte, e a terra mudava de cor. Os panos ficaram menos frequentes, e as aldeias, mais pobres. Viram cabras magras e homens que olhavam para nada. Souberam que ali as imagens haviam sido arrancadas há pouco, e as paredes tinham cicatrizes. Alguns, por teimosia, mantinham pequenos amuletos de barro sob a cama. Outros rezavam a paredes em branco. O rumor da cidade, ao longe, crescia: um mercado, um porto, e o barulho de pregos em mastros.
À tardinha, alcançaram uma cidade que parecia feita de dois tempos: um antigo, de pedra, e outro novo, de tijolo apressado. A cidade chamava-se Diopla. Ali, era para entregarem a Alba a um falcão de ferro: era como chamavam um oficial do general, homem seco, com roupa de couro e um elmo que parecia bico. Esse oficial morava no palácio do governador de Diopla, um homem prático, que trocava sermões por impostos.
Mas a entrada na cidade foi estranha. À medida que avançavam, as sombras das casas pareciam andar por conta própria, escorregando meia vara além da parede. Uma mulher carregava água, e sua sombra saía antes, derramando um balde imaginário. Os cães latiam sem ver por quê. O ovo, na caixa, vibrava. O vento do mar trazia cheiro de peixe, mas também de ferrugem e tinta fresca.
No portão, os guardas os detiveram e revistaram a caixa. Irina protestou, mas Aureliano fez um gesto: era melhor ceder. O guarda, ao tocar no marfim, puxou a mão como se tivesse sido queimado. “Que diabos é isso?” Simeão murmurou: “É diabo nenhum, é coisa que não quer mão suja.” O guarda, desconfortável, deixou passar. Eles atravessaram a praça central, onde havia um chafariz sem figura, só água jorrando de um bocal liso. Crianças brincavam com barcos de madeira. Uma senhora vendia lenços sem bordado, tal era a moda daqueles que temiam que olhos bordados olhassem.
No palácio, o oficial conhecido como Falcão de Ferro os recebeu com pressa e olho desconfiado. Tinha um nariz comprido como um bico, e as mangas arregaçadas mostravam músculos de uso. Ele fechou as portas e, sem cerimônia, disse: “Deixem a caixa.” Aureliano: “A carta?” Falcão mostrou um selo que confirmava a missão. “Eu levo isso amanhã ao general. Amanhã, na praça da cidade grande, ele quebra na frente de todos.” Irina, que viera para vigiar, arriscou: “Tem certeza que quebrar é o que deve?” Falcão fez uma careta que era quase um sorriso: “Tudo que pode ser quebrado deve ser quebrado.”
Aureliano, educado, assentiu, mas não ficou tranquilo. O rumor do ovo, mesmo dentro da caixa, os seguia. O Falcão mandou que se hospedassem numa casa vizinha, de paredes brancas e piso de madeira. Ofereceu vinho espesso e peixe. Os cavaleiros comeram pouco. À noite, Irina e Aureliano ficaram de conversa baixa. “Se ele quebrar o ovo no meio da praça, os mortos cantam”, disse Irina. “Ou o que quer que cante.” Aureliano coçou a cicatriz na pálpebra. “Talvez essa seja a ideia. Acabar com o medo é mostrar que nada sai de dentro.” Irina, que aprendera o peso dos silêncios, não respondeu.
A madrugada caiu com uma cerração pegajosa. Do porto, vinham gritos de marinheiros e o som de cordas. A cidade aqueceu sem sol. O Falcão, cedo, veio buscá-los. “Vão comigo. Quero que vejam. Vocês trouxeram, vocês assistem.” Eles foram, por dever e porque não sabiam recusar.
A praça estava cheia. Aquele era um tempo em que a gente gostava de ver coisas serem feitas e desfeitas. O general que queria o ovo, homem de rosto quadrado e olhar duro, estava lá, em cima de um tablado. Sua capa era pesada, mas sem borda trabalhada. Ao lado dele, um sacerdote com uma cruz simples. Embaixo, os comerciantes, os artesãos, os mendigos com latas. O Falcão levou a caixa até o meio, depositou-a em cima de um bloco de pedra. A multidão fez silêncio. Alguém assobiou, mandaram calar.
O general falou curto: “Hoje, vemos o fim de um rumor.” Levantou um martelo. Antes de bater, o vento mudou, e o cheiro do mar ficou mais agudo. Os panos das janelas bateram. Os nomes nas fitas nos braços dos cavaleiros aqueceram.
Irina levantou a mão, discretamente, e tentou chamar o vento para si, como quem chama um cão. O Vento de Linho estava longe, mas o vento do mar sempre é curioso. Ele veio. Aureliano apertou a cruz no peito. Petre abriu a mão dentro da faixa. Gregoras mordeu o lábio, como quem prepara uma canção.
O martelo baixou. Bateu no vidro do ovo. O som não foi de vidro quebrando, mas de sinos mergulhados em água. A superfície trincou, sim, mas não como uma janela. Trincou como a pele de alguém, abrindo-se em mapa. Uma rachadura cresceu, e por ela saiu… não um pássaro. Saiu uma bruma. Saiu uma coisa leve que não tinha forma, mas tinha peso de memória. A bruma espalhou-se pela praça, passando pela boca das pessoas. Não doeu. Passou. Um homem grande começou a chorar sem saber por quê. Uma mulher riu como se fosse menina. Um velho, que não ria, riu. Um menino soltou o barco de madeira e deixou-o ir pela água do chafariz, que correu por um momento em sentido contrário. Os mendigos, por um instante, olharam para o mar com saudade de algum lugar que nunca viram.
O general, sério, tentou dar mais uma martelada, mas a bruma tomou seu braço e o fez lembrar da noite em que ainda não era general e prometera coisas a uma mulher nua no campo. Seu rosto endurecido amoleceu. O sacerdote ao lado fechou os olhos e ouviu um canto de infância, de quando as imagens ainda estavam nas paredes e o mundo parecia ter olhos por todos os lados. O Falcão, com seu bico, cheirou o ar e sentiu medo, mas um medo doce.
A bruma, após rondar, buscou algo. Cheirou o vidro quebrado. Cheirou as faces. Pousou na mão de Petre, que tinha a fenda. Ele abriu, e a bruma repousou ali, como uma borboleta. Por um instante, sua mão brilhou. Irina, com um gesto, indicou o céu. A bruma, obediente como coisa antiga, subiu, sumiu no ar com um som de folha rasgada.
A praça não sabia o que fazer. Algumas pessoas aplaudiram. Outras se ajoelharam. O general ficou confuso. O Falcão de Ferro abriu a caixa e viu que dentro não havia nada além de pó fino, que parecia farinha, mas tinha brilho. Ele pegou um pouco no dedo e cheirou. Cheirava a mar e lençol limpo. Deu o pó ao sacerdote, que não sabia que bênção usar. Irina, baixinho, sugeriu: “Use as palavras de coisas simples.” O sacerdote disse: “Pão. Sal. Água.” As palavras assentaram o pó no fundo da caixa.
Aureliano olhou ao redor. Estava tudo ao mesmo tempo familiar e novo, porque quando memórias alheias passam por nós, nossas lembranças ficam mais nítidas, como borda de faca. Ele se aproximou do general e falou: “Acabou.” O general não respondeu, porque, pela primeira vez, não sabia a palavra certa.
O povo foi se dispersando. Um homem reconheceu um outro homem, abraçou-o como se tivessem brigado. Uma criança olhou para uma parede branca e desenhou com o dedo, no ar, um rosto sem traço, mas com vontade. O vento do mar subiu, e as velas nos mastros encheram. O Falcão guardou a caixa vazia e, atabalhoado, entregou uma bolsa aos cavaleiros. “Pelo serviço.” Não era muito, mas era o costume: paga-se o caminho, mesmo quando o que se trouxe se desfez.
Irina, que não gostava de finais que pareciam meio, foi ao chafariz lavar as mãos, e a água correu também por seus dedos como quem quer contar segredos. Ela pensou em Dária e no Casamento do Vento. Pensou no Noivo Velho. Pensou no velho cego que disse que o ovo cantava vozes do que ainda virá. O que saíra da Alba tinha passado por todos e, talvez, sem avisar, mudaria o que cada um lembraria no futuro. Há coisas que são assim: não assustam na hora, mas mudam o chão do passo.
Os cavaleiros de Santo Nilo ficaram mais um dia em Diopla, porque os cavalos estavam cansados e porque Petre precisava descansar a mão. Nessa noite, no alojamento, eles falaram pouco. Cada um estava com seus pensamentos, que agora pareciam ter arestas novas. Simeão sonhou com pregos que sabiam o nome das madeiras. Gregoras sonhou que a cidade distante com pontes no ar era apenas um mapa desenhado na pele das pessoas. Irina sonhou que paria um pássaro sem olhos e sem canto, e que o pássaro a guiava por uma estrada onde panos pendiam e bendiziam. Aureliano não sonhou, mas, quando acordou, trouxe no peito uma calma que fazia tempo não sentia.
Pela manhã, foram despedidos pelo Falcão, que, menos bico, agora tinha um nariz comum, talvez porque o vento tinha levado seu jeito de ferro por um momento. Ele disse: “O general não sabe o que escrever no relato.” Aureliano respondeu: “Escreva que a caixa ficou vazia.” O Falcão enrugou o rosto: “E o povo?” “O povo vai trabalhar. O vento vai soprar. As crianças vão correr. É assim.”
Na hora da partida, o vento soprou manso. As fitas com seus nomes bateram nos braços deles com carinho. Passaram pela praça. Uma mulher vendia peixes e, entre os peixes, vendia também pequenos panos sem bordado. “Para tapar o ouvido do vento”, disse. Gregoras comprou um, como lembrança, e o guardou no bolso do manto.
Saíram da cidade, pegaram a estrada que ia para o oeste. As colinas se repetir-se-iam, e o mundo, como sempre, iria em frente, tropeçando nos mesmos tocos e desviando de novos. No alto de um morro, eles pararam e olharam de volta. Diopla parecia um desenho feito com carvão. O mar atrás dela tinha uma cor de ferro amaciado. Aureliano tirou o capacete, coçou a cabeça, e disse: “Quando o vento casa, quem fica viúvo?” Irina sorriu. “O silêncio, por um dia. Depois, encontra outro vento.” Gregoras assobiou a cantiga do cais. Simeão mordeu a raiz. Petre, com a mão enfaixada, ergueu o braço e sentiu, por um segundo, a bruma que pousara nele como uma lembrança de calor.
Foram indo, e o caminho começou a repetir as árvores, como às vezes a memória repete o rosto de alguém antes de esquecê-lo. Uma raposa atravessou a estrada e parou para olhar, como se os medisse, e Irina a saudou com um aceno. Ao longe, panos brancos dançaram na colina. O Vento de Linho tinha voltado aos seus teares, e, talvez, alguém, naquela tarde, estivesse amarrando nomes para o próximo casamento. E o Noivo Velho, como sempre, rondava onde havia vontade de beleza, sem forma, mas com ciúme. Era bom saber que alguém como Dária sabia como lidar com ele.
A noite caiu com um céu que não parecia de ninguém, tão limpo que se podia ver o caminho dos deuses que ninguém mais desenhava. Aureliano, sentado junto à fogueira, virou para Irina e disse: “A gente fez o que tinha de fazer?” Irina, soprando a chama, respondeu: “Fazer, fizemos. Entender, não sei. Mas talvez sofrimento e alegria precisam de um vento que mexa, e precisamos de panos para não deixar mexer demais. Por isso existem tradutores de vento, como Dária. E talvez por isso existimos nós, que levamos e trazemos coisas que não cabem nos bolsos.”
Simeão, que mal falava de coisas além de ferro, disse algo que ficou: “Pregos não seguram vento. Mas seguram as portas pelas quais o vento entra. Se íamos abrir ou fechar, já não sei. Mas pelo menos escolhemos.” Gregoras riu: “E o barco do menino, no chafariz? Subiu ou desceu?” Irina: “Foi para onde a água quis.”
Dormiram sob um céu sem panos. Sonharam, e talvez o vento tenha entrado, medido, e saído, sem levar mais do que um fio de cabelo de cada um. Pela manhã, o grupo desceu para um vale onde as árvores tinham frutos de pedra, como se as flores tivessem confundido a matéria. A estrada, como sempre, prometia horizontes que nunca chegam. Isso não os entristecia, porque sabiam que a viagem não era para chegar, mas para atravessar e, ao atravessar, carregar no corpo os ventos que aprendem.
Na última aldeia antes da curva que levava à planície, havia panos de linho tão finos que pareciam feitos de ar. Uma menina, com os dedos sujos de tinta de noz, ofereceu a Aureliano uma fita sem nome. “Para quando esquecer o seu”, disse. Ele amarrou a fita no pulso e sentiu, por um momento, o peso de tudo o que lembrava e o que nunca lembraria. Sorriu para a menina e para o vento, que, brincando, mexeu no seu cabelo como uma mãe.
Seguiram. O mundo estava mais leve ou era a memória deles que estava amarrada com mais jeito? Não sabiam. Sabiam, isso sim, que, um dia, alguém contaria que, num tempo em que os retratos eram temidos, um grupo de cavaleiros levou um ovo que falava de memórias. Que, no caminho, amarraram vento e enfrentaram um noivo sem corpo. Que, na cidade, a caixa abriu e nada de pássaro saiu, mas uma bruma fez as pessoas respirarem diferente. Que, depois, tudo continuou, como sempre, diferente do mesmo jeito.
E que, por vezes, quando o vento passava entre panos de linho e nós de cabelo, alguém lembrava de um nome que nunca tivera, e sorria. Porque o vento e a memória são assim: passam e voltam quando querem, e só os teares dos que amam a beleza conseguem, por um instante, pedir-lhes que fiquem. Nesse instante cabe um mundo, e, então, os cavaleiros se vão. E o resto é a estrada. E o resto, também, é o vento, que nunca fica solteiro por muito tempo.
Did it land?