Fantasy worlds

Once upon a time…

Drawn from: Enchanted Forest, Present world story, Trickster, last moments before parting with a friend for a long time. Told in Portuguese.

No verão em que tudo parecia suspenso, Marta e João encontraram um banco de madeira na clareira do Bosque Encantado. Não era um lugar de fadas nem de bruxas, apesar do nome que a cidade insistia em manter no mapa e nas placas turísticas. O bosque ficava no limite de Santa Adélia, entre o campo de futebol da associação de moradores e a estrada de terra que levava ao antigo engenho. Havia pinheiros altos, eucaliptos docemente insistentes, um cheiro de terra úmida que persistia mesmo depois de duas semanas sem chuva. Diziam, por tradição, que o bosque “guardava segredos”, mas os segredos, ali, eram de gente comum: adolescentes escondendo cigarros, senhoras fazendo caminhadas para baixar a pressão, casais sentados com a distância correta de um braço entre os ombros.

Marta e João cresciam ali, desde sempre. Tinham atravessado juntos o ensino fundamental, as feiras de ciências, o grito na arquibancada em finais de campeonato da escola, os aniversários com bolo de padaria, as tardes em que ficavam de guarda quando a mãe de João trabalhava no turno da noite no hospital. Foi ali, na mesma clareira, que ensaiaram os discursos de formatura meses antes, repetindo piadas que não fariam sentido para mais ninguém e discutindo qual fotografia ficaria melhor no anuário.

Naquela tarde, no entanto, a clareira estava mais quieta que o habitual. O sol descia por entre os galhos como se quisesse se comportar, sem alarde, e o vento, raramente constante naquele vale, pousava sobre as folhas como um gato velho.

João chegara com uma mochila leve e um envelope amassado no bolso da jaqueta. Tinha escrito e reescrito uma carta. Não sabia se a entregaria. Marta vinha com uma garrafa de água e um pacote de balas de hortelã que ela sempre carregava para o caso de o mundo prender a respiração. Trazia, no bolso de trás da calça, uma foto dos dois com dez anos, sujos de terra, sorrindo com os dentes manchados de pirulito.

Eles se sentaram com a naturalidade de quem conhece o ranger do banco. João passou a mão no braço da madeira, sentiu a aspereza. Marta apoiou os cotovelos nos joelhos, ficou olhando para as formigas trabalhando uma trilha invisível.

Falavam sobre bobagens antes de se aproximarem do que importava. Comentaram o narrador do jogo do domingo, que insistia em errar o nome dos jogadores. Falaram da padaria do Seu Pedro, que começara a vender empadinhas de camarão “de verdade”, segundo Marta. Conversaram sobre a tia de João, internada com um susto no coração, mas agora com boas notícias. Riram de como sempre acabavam todos no Bosque.

— Você já decidiu? — perguntou Marta, sem levantar os olhos.

João demorou um segundo. O bolso com o envelope pesava. — Decidi. Vou. O embarque é domingo à noite. Madrugada, na verdade.

Marta assentiu com a cabeça, os olhos perdidos no chão. Já sabia, é claro. Sabia desde que ele compartilhara a carta de aceitação e depois o e-mail com os detalhes da moradia estudantil, o mapa do campus, o clima na cidade nova. Vivia dizendo “vai ser incrível” como quem repete um mantra que não é seu.

— Tem neve por lá — disse João, como se fosse uma informação nova. — Muita. Vou virar um boneco.

— Vou querer fotos — disse Marta. — Trinta por semana. De manhã e à tarde. Com legendas longas.

— Longas?

— Longas — ela sorriu sem muito entusiasmo. — Com detalhes. Que eu saiba o cheiro das coisas. A cor do ônibus. O nome do seu vizinho.

João percebeu então que a exigência era um pedido. Guardou-o junto ao envelope.

No Bosque Encantado, as pessoas diziam que a melhor hora era quando o sol batia no lago pequeno, mais para brejo, e os sapos começavam a fazer barulho. Ali não havia lago, na verdade, mas um charco que aparecia e desaparecia conforme a chuva. Naquela tarde, havia apenas uma folha larga com gotas paradas, como se o tempo tivesse sido polido.

— Eu não sei se consigo ficar feliz por você do jeito certo — confessou Marta, com uma honestidade que a assustou assim que as palavras saíram. — Eu tô feliz, de verdade. Mas tem uma parte de mim que... que tá com ciúme do lugar que vai te ter. Que não sou eu. Que não é aqui.

João respirou, pensou no que dizer, decidiu não dizer muito. — Eu também tô com medo — admitiu. — Não de lá. De aqui sem você. De perder as coisas que têm o nosso jeito. É bobo, mas eu penso no jeito que você ri quando eu falo “absurdo” do jeito errado. Penso no nosso banco. Penso em sexta-feira à noite, que sem você vira só sexta-feira.

Marta riu. — Você fala “absurdo” certo. Eu que gosto de te irritar.

O vento mudou, trouxe um cheiro de pão que, por um momento, os deixou em silêncio. Ninguém disse “é a padaria assando”, mas ambos pensaram.

Passou uma mulher caminhando com um boné fluorescente, acenou com a cabeça. Eles acenaram de volta. Um cachorro farejou o chão perto deles como se soubesse de uma história que esqueceram de ouvir.

— A gente podia fazer uma promessa — disse Marta, de repente. — Não de ficar se falando toda hora. isso sufoca. Uma promessa de... como eu posso dizer... de continuar assistindo o mesmo filme.

— O mesmo filme?

— É — ela ajeitou o cabelo atrás da orelha. — Escolher um filme por mês. O mesmo, no mesmo dia, cada um no seu lugar. Depois a gente manda áudio comentando. Do jeito que a gente faz aqui.

João abriu um sorriso verdadeiro. — Fechado. Um filme por mês. Com áudio. Com a parte do “não acredito que ele fez isso” e “essa trilha sonora é roubo emocional”.

— Principalmente essa parte.

O tempo ficou macio por alguns minutos. Foram minutos em que os dois quase esqueceram que estavam ali por causa de uma partida. Era como se tivessem vindo só para alimentar uma rotina, como tantas outras vezes. Falou-se do professor de biologia, que começou a colecionar suculentas. Do pai de Marta, que ia pintar o portão no sábado, sem pressa. Do planejamento da mãe de João para visitar a irmã no interior quando as férias do hospital deixassem.

No fundo, em camadas abaixo do trivial, havia uma contagem regressiva.

Marta tirou do bolso a fotografia amassada dos dois crianças. Esticou os cantos. — Lembra desse dia? Aquele campeonato de pipa. Você caiu no chão e começou a rir, e eu achei que você estava chorando.

— Eu sempre rio quando caio. Não dá para levar o chão a sério.

— Você disse isso naquele dia — ela sorriu. — E eu fiquei anotando na cabeça, como se fosse uma frase de livro.

João pegou a foto, passou o polegar no papel gasto. — Eu tenho outra — e mostrou o envelope. Não era a carta que ele tinha ensaiado. Dentro, havia uma foto impressa do mural da escola: os dois no teatro, cena congelada de uma peça qualquer, ele olhando para o público e ela para ele.

— Pensei em te escrever — confessou. — Mas eu não ia saber parar. Então trouxe isso. Assim a gente tem as duas versões da gente.

Marta mordeu o lábio inferior por um instante. — Obrigada.

O barulho das folhas parecia agora um tipo de música. A luz mudava lentamente, ficando mais amarela. O Bosque Encantado fazia o papel dele: manter uma certa dignidade no adeus, como uma igreja sem paredes.

— A gente vai se ver no Natal — disse João, como quem coloca uma bóia no rio.

— Vai — disse Marta. — E até lá a gente vai assistir doze filmes. E você vai me mandar fotos detalhadas das luvas. Eu acho que luvas carregam histórias.

— Luvas?

— Sim. Tem luva de quem trabalha, luva de quem só quer enfeitar, luva sem par que se perde no ônibus. Você me conta o que der para ver.

— Tá bem — ele riu. — Eu vou virar o repórter de luvas.

Eles ficaram mais um pouco. Quando a sombra cobriu o banco, Marta falou da faculdade que ela faria na cidade, no curso noturno. Contou do medo de chegar do trabalho e ainda ter quatro horas de aula pela frente. João disse que ela ia dar conta como sempre deu. Contou de seu medo de moradia compartilhada e de cozinhar para si mesmo sem queimar a frigideira. Ela prometeu mandar uma receita de arroz sem drama.

A despedida começou antes de alguém se levantar. Começou naquele silêncio em que os dois olharam para os próprios tênis, como se neles houvesse um mapa. Começou nas mãos que deslizaram para o meio do banco, procuraram uma a outra e se apaziguaram num meio-termo confortável. Sempre fora assim: intimidade que cabia no público.

— Eu não tenho uma frase boa para agora — disse João, quase pedindo desculpas.

— Nem eu — disse Marta. — Acho que não precisa. A gente nunca foi de fogos.

— Só de formigueiro.

— E de pão quente.

Eles se levantaram finalmente. Não era um movimento teatral. Foi o levantar de quem sabe o horário do ônibus, de quem prometeu estar em casa para o jantar. Marta pegou a garrafa de água, fechou com força a tampa, como se aquela ação pudesse organizar outras. João colocou o envelope de volta no bolso, com a foto já do lado de fora para não amassar a cara de ninguém.

Caminharam juntos até a saída do bosque, o chão de cascalho fazendo barulho familiar sob os passos. A rua lá fora tinha carros e bicicletas, um senhor vendendo churros na esquina, um grupo de crianças tentando equilibrar um skate para dois. A vida parecia alheia a qualquer despedida que não fosse a sua.

Na calçada, pararam junto à faixa de pedestres. O sinal fechado para eles, aberto para o fluxo que não tinha ideia da urgência.

— Você me liga quando chegar — disse Marta.

— Te mando mensagem do portão — disse João.

— A foto da luva.

— A legenda longa.

Eles se abraçaram. Era um abraço que conhecia a altura de cada ombro, os cheiros de shampoo e de rua, o jeito de afrouxar no final para que o outro respire. Ficaram um tempo maior do que seria apropriado para um cruzamento, mas ninguém reclamou. As buzinas existiam, o vendedor de churros chamava clientes, a vida tinha pressa, mas, por um instante, cedeu espaço.

Quando se soltaram, os olhos de Marta estavam úmidos. Ela não chorava fácil. João percebeu e não disse nada, só assentiu com uma delicadeza que os anos de amizade lhe ensinaram. Ela disse “vai”, e ele disse “vou”, mas nenhum dos dois se moveu. Riram juntos do próprio drama.

— Tchau, Marta.

— Tchau, João.

Ele atravessou a rua quando o sinal mudou, transformado, por segundos, em alguém que não olha para trás. Ela ficou na calçada, olhando os carros passarem como se fossem parte de um filme mais longo. O celular no bolso pareceu vibrar, mas era só um hábito do corpo. João, do outro lado, parou uns passos adiante, fingindo ajeitar a alça da mochila. Virou-se e levantou a mão. Marta levantou a dela. Uma coreografia antiga.

Ele seguiu pela avenida até desaparecer no fluxo de gente que sai e entra no terminal. Marta caminhou devagar até a banca de jornal que ainda resistia na esquina, comprou um doce de amendoim, mastigou como quem precisa de uma ação simples. O Bosque Encantado, atrás dela, continuava com suas árvores e trilhas, esperando outros encontros, outros nomes gravados no banco de madeira.

Naquela noite, na cozinha, Marta colocou a foto das duas crianças na porta da geladeira com um imã de coração que ganhara numa feira. A mãe perguntou se queria chá, e ela respondeu que sim, que gostaria de chá e de um pouco de silêncio. No quarto, encontrou a metade de um ingresso de cinema na gaveta, guardado sem pretensão, e enviou uma mensagem para João: “Nosso primeiro filme vai ser o italiano das bicicletas. Topa?” A resposta chegou minutos depois: “Topo. Com áudio longo e luvas.”

A vida seguiu. João embarcou no domingo, mandou a foto do portão de embarque, da janela do avião, da luva esquecida no assento do ônibus do aeroporto. Marta respondeu com a foto do portão pintado pelo pai, da chuva tímida que finalmente chegou, do banco do bosque com sombras novas. As mensagens não eram diárias, mas traziam o que importava: o cheiro, a cor, o nome das coisas.

Ninguém escreveu uma matéria sobre eles no jornal da cidade. Ninguém deu um prêmio à despedida num pequeno bosque com nome grande. Mas, se alguém passasse pela clareira, dali a alguns dias, poderia notar dois pedaços de papel presos sob a madeira do banco, como se o vento os tivesse levado até ali. Um mostrava duas crianças sujas de terra, sorrindo. O outro, um palco escolar e dois adolescentes congelados num gesto de cena. E, se alguém encostasse a orelha na madeira, talvez ouvisse, fraco, o eco de uma risada que cai e se levanta, de uma promessa de filme, de uma legenda longa. O bosque guardaria, como guarda desde sempre, segredos de gente comum. E, entre eles, o último instante antes de duas vidas tomarem, por um tempo, caminhos paralelos.

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